Entrando na área de TI

Introdução

Depois da entrevista feita no departamento de Tecnologia da TOTVS na semana passada, referente a matéria sobre as oportunidades na área de TI (http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2015/08/area-de-tecnologia-abre-quase-41-mil-vagas-no-primeiro-semestre-de-2015.html), recebi muitas mensagens de pessoas interessadas em começar a carreira nesta área.

Tendo em vista que este é um tema de interesse geral, tanto para quem que iniciar nesta área, como para quem quer mudar de área e vir para a TI, respondi a todos que publicaria um (ou mais) post(s) no Blog, para dar uma “luz” sobre este assunto, e contar um pouco de como eu comecei a programar computadores.

TI é muito amplo

TI, ou Tecnologia da Informação, é uma terminologia muito genérica, e amplamente abrangente. Ela envolve a aplicação de computadores e soluções informatizadas como meios para atingir um objetivo, normalmente ligado a resolução de um problema ou necessidade, ou tornar mais eficaz um processo qualquer.

Analisando apenas os componentes básicos de qualquer sistema informatizado (Computador, Celular, Tablet), temos basicamente dois tipo de componentes: Hardware (a parte física do equipamento), como o processador, placas, periféricos (acessórios), expansão de memória, armazenamento interno e externo, dispositivos de entrada e saída (teclado,vídeo,touchscreen), dispositivos de comunicação (placas de Wi-fi, Bluetooth), enfim, qualquer parte do equipamento que seja palpável entram no Grupo de “Hardware” — dá pra se ter uma idéia de quão grande é esse grupo imaginando tudo o que eu mencionei e o que eu não mencionei neste exemplo.

Tão ou mais amplo do que o Hardware, temos o grupo de elementos necessários para o funcionamento dos dispositivos de Hardware: O SOFTWARE. Reduzindo drasticamente a definição, o Software é o “programa” que realiza as operações com grupos de elementos de Hardware em um sistema computacional, responsável por realizar um processamento ( ou transformação ) de informações.

Tão amplos quanto estes dois grupos de elementos de um sistema computacional, são as aplicações práticas de todas as demais áreas de conhecimento que podem tirar proveito deste universo. Por ser um mundo de intermináveis terminologias, definições, paradigmas, e um extenso vocabulário que está em constante mutação, existem cursos e graduações de diversas áreas que já englobam na grade curricular matérias adicionais para explicar como e através de que a tecnologia da informação pode ser usada como um diferencial competitivo para tais atividades, como “Administração com ênfase em Tecnologia da Informação”, “Gerenciamento de Projetos com ênfase em Tecnologia da Informação”, e por aí vai.

Conhecimentos Gerais

Na minha opinião, deveria entrar definitivamente na grade curricular do ensino fundamental algumas matérias como “Introdução a Informática”, para explicar um pouco desse mundo, sobre o que é um computador (sem entrar muito fundo nos circuitos, mas sim nas definições), para que um computador pode ser utilizado, como utilizar para o seu dia-a-dia, o que é a Internet, o que são redes de computadores, como o computador pode tornar a vida das pessoas e das empresas mais fácil. Só este parágrafo já daria uma boa quantidade de matéria.

Conforme você entende o que é e como funciona superficialmente um computador, naturalmente a curiosidade de cada um vai despertar questões sobre “como funciona” por dentro, como eu faço para usar um determinado programa, como eu faço para CRIAR um programa, e por aí vai. Um sistema informatizado é composto por várias camadas, cada uma delas tem as suas características e particularidades, podem ser usadas uma ou mais linguagens de programação para criar aplicações, podem ser necessários mais dispositivos ou periféricos para uma determinada necessidade, o leque de opções tende ao infinito.

É importante você tomar contato com este universo, e então dar uma mergulhada naquelas partes que você se interessou. As vezes um determinado assunto pode parecer muito interessante, mas quando você entra dentro dele, ele é mais simples ou mais complexo do que você imaginava, e quando você mergulha em outro assunto, você pode achar ele mais ou menos interessante do que outro assunto que você tenha visto.

O ponto onde ocorre um “click” na sua cabeça, e você conclui algo como “putz, gostei muito disso aqui”, depois de ter visto com mais profundidade uma determinada área, normalmente é neste assunto que você vai mergulhar, e só vai sossegar quando você pegar aquilo com as próprias mãos e dominar este assunto.

Conhecimentos específicos

Dentro de cada sub-área da TI, existem conhecimentos básicos, intermediários, avançados e especialistas. Normalmente cada nível deste conhecimento pode ser necessário quando você precisa lidar com problemas ou soluções maiores. Normalmente uma solução integrada envolve tantos conhecimentos específicos, que é necessário um profissional de cada área envolvida para trabalharem juntos em um problema.

No desenvolvimento de uma aplicação para controlar e monitorar uma estufa para um determinado tipo de planta ou alimento, você vai precisar de um especialista na produção deste alimento, que conhece as etapas do cultivo, as condições climáticas ideais e todo o conhecimento específico daquela planta, esse cara é o “especialista de regra de negócio”, ele sabe como tem que ser para dar certo. Você também pode precisar de outros especialistas, para as partes elétricas e hidráulicas necessárias, bem como os dispositivos de monitoramento (termômetro, medidor de umidade), e para criar o programa de computador para controlar e monitorar a estufa, você precisa conhecer uma linguagem de programação onde você possa endereçar os dispositivos conectados no computador, para medir as condições do ambiente, e disparar ações como ligar ou desligar um bloco de iluminação, ou alterar a quantidade de água liberada para irrigação ,etc…

Para desenvolver um sistema de controle financeiro, falando de algo mais “avançado”, você vai precisar de um profissional que conheça profundamente sobre o assunto em questão e as operações que podem ser realizadas neste contexto, bem como quais são os resultados relevantes e controles que você precisa implementar na aplicação para ela apresentar os resultados esperados de forma que estes resultados sejam úteis para o controle financeiro e confiáveis para a tomada de decisões.

Se você se interessa por desenvolver drivers de dispositivos ou integrações com dispositivos, você precisa conhecer as especificações e padrões de comunicação do computador com estes dispositivos, para saber escolher qual delas atende melhor a sua necessidade. Normalmente este grau de aprofundamento surge quando você participa de um novo projeto, e é necessário ter este conhecimento para participar dele.

A necessidade é a mãe da invenção

Isto se aplica a muita coisa … um conhecimento qualquer, se não for utilizado, se perde. É como aprender um novo idioma, e não conversar com outras pessoas periodicamente com o idioma que você aprendeu. Quanto mais tempo você não usa este conhecimento, ele vai se perdendo naturalmente … Ainda mais quando você faz um curso daqueles “intensivos”, onde você precisa assimilar uma grande quantidade de informações em um curto espaço de tempo. Daqui a alguns anos, você não pode mais dizer que “sabe” falar Inglês, mas apenas mencionar que “você fez um curso a alguns anos, ainda lembra de alguma coisa, mas está enferrujado”….

Aplicando isso diretamente na informática, é sempre bom você estar atrás de novos conhecimentos, mas o investimento neles somente trará resultados e você somente vai tirar proveito dele se você aplicá-lo na sua atividade. Pra quem é autodidata, e tem facilidade em entender como as coisas funcionam apenas lendo uma documentação ou pesquisando, a Internet é um prato cheio. Existem vários cursos de curta duração, oferecidos gratuitamente por instituições de ensino, inclusive com prova e diploma de conclusão. Você pode fazer um curso desses por curiosidade ou necessidade, basta usar o conhecimento adquirido que ele não se perde.

Entrando no mercado

Existem várias portas de entrada no mercado para diversas áreas, depende muito do conhecimento que você adquiriu nos seus estudos ou cursos. Você não vai encontrar logo de cada a vaga dos seus sonhos. Mesmo tendo acabado de terminar uma faculdade, você aprendeu como as coisas deveriam funcionar, as metodologias mais utilizadas, como tirar proveito delas e os parâmetros de base para escolher entre uma e outra. O aprendizado nesta área é só o começo… Depois dele, vem a vivência da aplicação prática deste conhecimento, e isso sim faz você se tornar um diferencial.

Muitas pessoas que entraram em áreas como programação e desenvolvimento de sistemas, não necessariamente planejaram isso, tomaram contato com a informática de uma forma casual, quando compraram um computador para colocar na empresa, ou quando ganhou um computador dos pais e precisava aprender a usá-lo, e tomaram gosto por isso.

Antes de eu me tornar desenvolvedor de software, eu fui estagiário na escola de informática onde eu fiz o curso de Introdução a Informática e ao IBM-PC. Embora eu já tivesse conhecimento de programação em duas linguagens (Basic e DBase III), não havia nenhuma atividade como estagiário onde eu pudesse aplicar este conhecimento. Porém, como estagiário, eu aprendi outras coisas, como atender bem um cliente, o que é e como funciona um ambiente de trabalho, como eu deveria encarar atribuições de novas responsabilidades. Em um período de intervalo entre os cursos, o material didático era impresso na própria escola, as apostilas foram feitas usando o editor de textos ChiWriter, e eram impressas uma a uma em uma impressora Rima XT-600, com qualidade gráfica. A impressão era lenta, o cabeçote de impressão funcionava com o impacto das agulhas de impressão em uma fita (parecida com a usada nas máquinas de escrever) contra o papel, puxado por um cilindro.

Ficar de “estátua” olhando as apostilas serem impressas não estava nos meus planos … não me parecia uma atividade nada agradável. Então, comentei com meu chefe se não tinha nada mais “desafiador” para fazer. Ele pensou por alguns instantes, e perguntou se eu conseguia ler o material enquanto ele estava sendo impresso. Eu disse “— claro, tranquilo”. Logo, ao invés de monitorar a impressão pra ver se o processo de puxar o papel e dobrar corretamente a impressão em andamento, eu passei também a revisar o material didático durante a impressão.

Por uma semana, durante a impressão do material, eu li todas as apostilas dos cursos em andamento, e de cursos que eu já havia feito, e apontei os pontos do material que precisavam de correção ou que poderiam ser melhorados. Não escrevi uma linha de nenhum programa, mas aprendi um pouco de todos os outros cursos dados pela escola, que continham informações bem interessantes.

Mais tarde, depois de algumas reviravoltas do governo Brasileiro, como alterações na moeda, confisco da poupança e outras medidas, a escola acabou fechando, e eu procurei uma opção para me tornar desenvolvedor de software… mas não encontrei. Então, comecei a desenvolver por conta. A linguagem da época era o Clipper 5.x, recém lançado, que extendia (e muito) os recursos que eu já havia aprendido com o DBase III. Comecei desenvolvendo uma biblioteca de funções de interface, e peguei um projeto de software para um Disk Pizza novo no bairro … Depois de alguns anos, eu já tinha desenvolvido sistemas de estoque, vendas, varejo, clientes, contas a receber e pagar, locação de imóveis, controle de hotel, analise combinatória de loterias, planejamento e corte de barras de alumínio, imobiliária, consórcio de antenas parabólicas, faturamento e estoque de material de construção, agenda, controle de processos para advocacia, sistema de estoque e faturamento de lojas de roupas infantis, trabalhei com o ERP da NorthSoft (New Age e Visual Prodigy), fiz implantação, treinamento, suporte, manutenção e customizações, e mantive aberto por dois anos um escritório usando uma sala de uma imobiliária, com quem fiz uma permuta do contrato de manutenção de um sistema de controle de locação e venda de imóveis. Mas meu sonho ainda era trabalhar com tecnologia, em uma empresa maior.

Cavando a oportunidade

Nenhuma oportunidade caiu do céu, eu sempre estava em contato com os comerciantes da cidade, e corri atrás das oportunidades, e elas foram aparecendo. Construir uma carreira em TI não foi um desafio muito gratificante, mas conquistado com esforço e mérito. Eu não entrei na Microsiga em 1999 como especialista, entrei para o departamento de programação e manutenção do ERP, na equipe do Financeiro e Contábil. Por ter experiências anteriores, não foi difícil assimilar o modelo de funcionamento do ERP, e já fui contratado como programador Pleno. Não demorou muito para eu ser percebido pela minha chefe e pelo gerente de desenvolvimento, que eu tinha um perfil de tecnologia.

Recebi novos desafios de sistemas internos da empresa, que aceitei com o maior prazer, e dei conta do recado. Dentro da empresa as oportunidades foram aparecendo, e pouco mais de um ano depois eu estava na tecnologia WEB do Makira, que deixou de ser um departamento WEB da Microsiga e passou a ser uma empresa do grupo. Alguns anos depois, com a fundação da TOTVS, a Makira deixou de ser uma empresa so grupo, e passou a ser uma marca de uma linha de produtos para integração Web, e eu entrei para o departamento de Tecnologia da TOTVS, como Engenheiro de Software.

Para não fugir muito do objetivo desse post, a moral da história é a seguinte: Nem sempre você vai entrar no emprego dos seus sonhos, nem com o salário dos seus sonhos após adquirir algum conhecimento e experiência, você vai ter que mostrar, com sua atitude, que você é capaz de absorver novos conhecimentos e vencer desafios, e então buscar reconhecimento pelos desafios vencidos, para então procurar mais desafios.

O que têm pra hoje

A demanda de profissionais é alta, mas exige a capacitação. Não apenas ter o conhecimento, mas saber aplicá-lo. E esta formação não é tão rápida, não se constrói da noite para o dia. Por isso muitas empresas optam por fazer planos de treinamento internos e transferir este conhecimento através de planos de estágio e cursos oferecidos sem custo ou com subsídio para os funcionários e colaboradores que já estão na empresa. Elas oferecem isso para você se tornar um colaborador que vai contribuir com o crescimento da empresa, pois com isso você cresce junto da empresa.

Na reportagem publicada na segunda-feira no Bom dia Brasil, da rede Globo, que eu tive a honra de ser convidado, foi dada ênfase a falta de profissionais qualificados, a iniciativa da Totvs em fazer uma parceria com o Senai e dar cursos de formação em TI para os alunos selecionados entrarem na área e crescerem junto da empresa, e mencionaram um salário (máximo) de 20 mil reais.

Meu chapa, nem eu cheguei lá ainda … eu nunca vi uma vaga de TI (exceto de Diretor para cima) com este salário. Você deve conquistar várias promoções e mostrar para a empresa que você trabalha, que o seu trabalho e a sua conduta profissional agregam valores diretos e indiretos aos produtos confeccionados, aos clientes e projetos atendidos, e agrega conhecimento e bom exemplo para os demais participantes e colaboradores da Empresa, e isto requer tanto conhecimento quanto atitude.

E isso também depende de fatores de mercado e fatores organizacionais da empresa. Muitas vezes as empresas estipulam uma meta de crescimento agressiva, e ajustes de orçamento para todos os departamentos podem ser fatores limitantes para uma promoção. Neste caso, você pode optar por comprar a briga junto da empresa (vestir a camisa), e passar dois ou três anos sem uma promoção, mesmo sabendo que o reconhecimento financeiro pelo seu potencial e desempenho não acompanharam os seus méritos, porém uma vez sendo atingidos os objetivos, cabe a empresa valorizar os profissionais e colaboradores que fizeram a diferença e entraram nessa batalha com a empresa. Se isso não acontece, quem mais perde é a própria empresa, que precisa encontrar no mercado profissionais tão qualificados quando os que estavam com ela, pois estes procuraram e encontraram novas oportunidades de mercado por não serem reconhecidos.

Resumo da ópera

Não se intimide diante de desafios, estes devem ser vistos como oportunidades de crescimento. Não tenha preguiça em aprender, isso será uma constante nesta área. Não tenha medo de errar, isso pode acontecer, mas procure aprender com os seus erros e com os erros dos outros, procure se preparar da melhor fora possível para qualquer etapa do seu trabalho, pois o seu sucesso e reconhecimento dependem disso. Entenda quais são as suas responsabilidades no seu trabalho, e foque nelas. Não tenha medo de dividir conhecimento, afinal você só consegue subir uma posição na sua carreira, se houver alguém preparado e capaz de assumir o espaço que você vai deixar ao subir de cargo ou assumir novas responsabilidades. Lembre-se que em qualquer trabalho, existem atividades gostosas e atividades chatas, e que de vez em quando você vai ter que fazer algumas chatas antes de pegar as boas, e ambas fazem parte do seu trabalho. Faça ambas com a mesma dedicação e entusiasmo, e você vai ver que quando qualquer uma das tarefas é bem feita, ela gera bons resultados, seja uma tarefa chata ou seja uma tarefa legal. E, por último, mas uma das coisas que eu acredito ser mais importantes: Procure se colocar no lugar do seu cliente, e avalie o resultado do seu trabalho como se você fosse o cliente que vai usar o que você desenvolveu, ou documentou, ou participou. Entenda o que o seu cliente quer, e onde ele quer chegar com o resultado do seu trabalho, pois quanto mais próximo o seu trabalho chegar no resultado esperado pelo cliente, maior será a visibilidade do seu trabalho, em com ela o reconhecimento pelo seu mérito.

Espero que estes parágrafos sejam de alguma forma úteis para todos vocês 😀

Até o próximo post, pessoal 😉 Desejo a todos TERABYTES de sucesso !!!